O calor da noite sem vento o transtorna menos que as últimas palavras que ouviu. De sempre em sempre, declara-se como um perdido. Amargo, acorda e não lembra mais de desejar "bom dia" aos que considera amigos. Todos os verdadeiros o perguntam o motivo de serem tratados como estranhos naquele dia, mas ele mal consegue ouvir, ensurdecido em próprias dores. A fome é a única que consegue distraí-lo.
Um dia perdido pensando no som que ouviu daquela boca. Deitou-se e pensou estar escrevendo, quando na realidade já sonhava. E de repente, sonhou com prazeres perdidos e reprimidos que há muito havia esquecido que possuía. Durante o novo dia, obcecou-se pelo sonho que tivera. Não poderia mais arriscar sofrer com insônia. Nada de café, nem durante o mais tedioso momento de trabalho monocromático. Nada de gorduras no jantar. Voltou para casa correndo. Entre piscadas, lembrava o que ouvira. Acelerava. Tomou um banho frio e deitou-se no sofá vendo um filme que sabia que não iria finalizar.
Orfeu o encontrou. Agora não haviam mais palavras que o machucassem, pois nenhuma que fosse proferida naquele reino poderia ser recordada posteriormente. Algum passageiro o contou que ele não precisaria acordar. Gostou da ideia. Era apenas, sabia, mais um caso de fuga da realidade. Mas se pudesse ser feliz para sempre, o que outros escolheriam? Decidiu não ponderar mais na questão.
Se foi.
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