23.10.14

O Encontro.

O calor da noite sem vento o transtorna menos que as últimas palavras que ouviu. De sempre em sempre, declara-se como um perdido. Amargo, acorda e não lembra mais de desejar "bom dia" aos que considera amigos. Todos os verdadeiros o perguntam o motivo de serem tratados como estranhos naquele dia, mas ele mal consegue ouvir, ensurdecido em próprias dores. A fome é a única que consegue distraí-lo.
Um dia perdido pensando no som que ouviu daquela boca. Deitou-se e pensou estar escrevendo, quando na realidade já sonhava. E de repente, sonhou com prazeres perdidos e reprimidos que há muito havia esquecido que possuía. Durante o novo dia, obcecou-se pelo sonho que tivera. Não poderia mais arriscar sofrer com insônia. Nada de café, nem durante o mais tedioso momento de trabalho monocromático. Nada de gorduras no jantar. Voltou para casa correndo. Entre piscadas, lembrava o que ouvira. Acelerava. Tomou um banho frio e deitou-se no sofá vendo um filme que sabia que não iria finalizar.
Orfeu o encontrou. Agora não haviam mais palavras que o machucassem, pois nenhuma que fosse proferida naquele reino poderia ser recordada posteriormente. Algum passageiro  o contou que ele não precisaria acordar. Gostou da ideia. Era apenas, sabia, mais um caso de fuga da realidade. Mas se pudesse ser feliz para sempre, o que outros escolheriam? Decidiu não ponderar mais na questão.
Se foi.

16.10.14

6.

o sol sai de nuvens

sento na beira e anoto

o rio corre lento

minha angústia

minha angústia não me maltratará não mais pois agora eu vou escrever escrever escrever canso descanso penso sinto saudade quero teu beijo quero tuas mordidas que eu tanto reclamo quero gritar e brigar com você estou aaaa cheio de palavras fortes na garganta e tomo cuidado principalmente comigo mesmo eu tenho a espada do respeito-próprio eu me digo na cama enquanto choro todas as noites mostrando minhas falhas para você e vocês todos sabem disso de tanto que eu já falei de tanto que eu reclamo de tanto que eu tento fazer piadas eu sou um livro aberto e eu sou um ambicioso cheio de motivação mas nenhuma vontade real eu vou tentar mais uma vez mais várias vezes e dessa vez minha angústia não me maltratará não mais.

monotonia

E lá vou eu de novo. A nanquim na minha mão ainda nem de longe se cansou de escrever, mas eu não sei mais sobre o que falar. Os dias passarão registrados enquanto houverem registros. Se marcam aqueles que eu não conseguir lembrar. E lá vou eu de novo, apostilas na mesa, caderno cheio de anotações que não serão conferidas de novo. E quanto mais me planejo, mais me programo, mais fico sem tempo. Tenho seis horas para fazer tudo e desde sempre, não consigo fazer nada. Mas faço de tudo, sem nunca me aperfeiçoar.

Lá vou eu de novo, deitando no chão e alcançando meus próprios joelhos. Quanta vezes já me prometi? Quanto já não me comprometi? Deito de vez, me dou tapinhas de compensação pelo esforço. Quando levanto, o chão está molhado, mas não me sinto diferente. Queria um passe de mágica, assim como todos. Todos. A injustiça de não sermos atingidos por uma aranha radioativa.

"Que bom que poucos conseguem fazer arte, pois se tudo fosse arte, nada seria arte". Concordo com pesar de quem não consegue fazer.