22.7.15

Tique.

           Sua última percepção solitária foi a de seus tiques mais involuntários e uma retrospectiva.

     Retrocedeu e viu onde começou. Em inocentes amizades, afeição e respeito. Da janela de sua casa, sempre pode encontrar olhares acidentais com os amores que gostava de ter por perto. Colocava a cabeça um pouco para fora e olhava para a barreira de vento da casa vizinha. Talvez seu amigo estivesse lá, e trocariam um aceno de mãos de uma distância besta. Não era proposital, mas com o tempo passou a olhar toda manhã. E de tanto se importar, decidiu que nunca iria falar aquilo para seu amigo. O segredo era parte da mágica da surpresa do encontro.

O segredo era parte da mágica da surpresa do encontro.

Criou tique. Foi passando de amores em amores. Passa na frente da casa, está olhando pra janela, pra ver se ele está lá. Se ela está lá. Nunca importando se já se mudaram, brigaram, superaram, ou se hoje em dia se odeiam. Sempre vai olhar pra todas as casas, pra todas as janelas de forma igual. Talvez tenha se apaixonado por elas.

Na rua passou um modelo de carro igual. Os olhos vão na placa do veículo agora toda vez.
Criou tique.

(a-Taque)

     Gostaria de conseguir explicar para algum de seus amigos, mas nunca conseguia se lembrar de aquelas pequenas coisas lhe importavam. Não numa importância que toma tempo, não. A importância mais passageira possível, aquela que não é compartilhada com ninguém. Mas ele percebeu debaixo d'água, que aqueles momentos eram como o fundo do atlântico. Mas ninguém tentava alcança-los.

    Talvez apenas os que cultivaram dentro de si o verdadeiro dom da palavra. Não a palavra retorcida como a dele, que buscava alcançar leitores e elogios. Os verdadeiros. Passam a sensação de que seguram com as mãos mortais, o que todo mundo já viu e nunca falou. Já aqui, tentava capturar seus devaneios no meio da rua, onde sempre irão acontecer. E pensando neles tanto, percebe erros tantos até se cansar. Volta e meia, anda em anos.

(margarete)

          Margarete chegou na prisão. Margarete chegou em sua sela com um pisão, o guarda fechou as grades e a penitenciária inteira de Amaralina ouviu.

- EU NÃO QUERO FAZER MAL A NINGUÉM NESTA PORRA, MAS TAMBÉM NÃO TO AQUI PRA TOMAR UMA DE NINGUÉM, VU!!!
       Todos ouvintes antes distraídos, pularam e caíram no susto. Foi silêncio de uma vez. Margarete pediu espaço entre dois bocas-abertas e se aquetou na cama mais distante da janela, pois aquela cela já estava com gente até demais. O burburinho retornou vindo de outras grades, antes daquela que a observava sem nenhum discrição.  


*******

19.7.15

quinta-feira.

   E depois de tudo, quando rabisco o papel e paro para notar como é que tudo vai saindo da minha cabeça, não encontro o decisivo ponto final.

De onde tudo vai significar enfim em outras cabeças, a perda é um total desastre.

 Aonde terá se enterrado? Ao final de que que arco-íris? Ouço minha voz com outro sotaque e mais grossa.

Tenho medo de Deus e da crise do país.

 Em breves instantes (realmente breves), a luz infiltra e marca. Ganho confiança.

 Com certeza, vírgulas.

Talvez seja a falta de coragem em não repetir.

9.7.15

8.

deitei na cama cansado

o céu laranja

noite chuvosa feliz

Cartas de amor se respondem ou se devolvem.

  Sete de Julho do ano Quinze.

   Olá, velho amigo.

    Me desculpe por não te dar notícias durante todo este tempo. Sentia falta da sua presença física no início, mas depois de um tempo parei de pensar dessa forma. Percebi afinal, que as maiores amizades que já fiz durarão para todo o sempre sem necessitarem trocar mais frases distantes. É uma das verdades mais simplórias, mas nenhuma amizade jamais é substituída por outra. Se não são despedaçadas, nunca se perderão.

    Pois bem. Te escrevo pois viajo e neste último ano presenciei sentimentos e pensamentos incríveis, no melhor e no mais trágico sentido que esta palavra pode passar. Tudo ao mesmo tempo. Eu caminhava ao redor de uma pequena cidade, quando perdi contato. Encontrei um campo onde nasciam todas as espécies de flores que existem nesse mundo. E neste lugar aberto, havia uma bela entidade que emitia luz e calor. Bastou olhar para aquela forma viva que sabia do que se tratava. Naquela espécie de paraíso, aquele era o Deus Regente, e senti como se houvessem passado meses e meses apenas observando tal criatura, ainda que fossem breves minutos. Enquanto me sentia extremamente reconfortado, as flores que estavam perto de mim passaram a enegrecer e murchar, e este  foi o tempo que durou até aquele jardim perceber minha presença indesejada e lançar uma criatura negra como sistema de defesa sobre mim.
   Uma silhueta escura, como se uma sombra andasse em minha direção com olhos verdes. O maligno me alcançou antes mesmo que eu pudesse reagir e avançou em meu peito. Encostou o que mais parecia com um rosto em sua tenebrosa feição e apesar de começar a sussurrar no meu ombro, sua voz era como centenas de trovões que ecoavam juntos, ensurdecendo-me.

- Sua presença aqui alegra meu Deus, é verdade. Mas retira-lhe todas as energias para que este lugar continue vivo como nenhum outro. Vá embora ou sofrerá igualmente. A partir de já.

  Perdi todo o meu ar naquele instante, amigo. Tudo o que estava enchendo minha alma de alegria a poucos instantes, agora destruía todas as células de pensamento do meu corpo. Lancei um último relance para a Divindade que permanecia atrás do Maligno, e desatei a chorar quando li em seus olhos brilhantes como o Sol de que não desejava me fazer mal algum. Realmente apreciava que eu havia encontrado tudo aquilo. Chorei durante horas, enquanto no chão, rastejava buscando ar para respirar e uma saída dali.
 

6.7.15

Falar sobre ele...

   As vezes sinto saudade de mim. Ou é só saudade mesmo por definição que é assim com todo mundo, talvez. De outras casas, outras pessoas, outros hábitos, menos medos. Queria ter me olhado menos no espelho. O saudosismo que andava sendo deixado de lado, agora explode dentro de mim. E eu mesmo vejo quem sou e como serei. Metade de um ano, desafios têm acontecido enquanto mais ninguém observa. O mundo se complica, e eu aqui onde ninguém vai se importar daqui a duzentos anos. Apesar das memórias, o presente segue vivo, e meu passado sou eu menos preparado e mais distante. Inquietude não vai me deixar parado. Desencaixando, leveza.
   Voltei a escrever sobre o passado e isso me faz bastante feliz. Terminou. Terei saudade de mim no futuro? O liquidificador gira.

3.7.15

escrever.

Não ouvia tu me ouvir. Tu não ouvia pois eu não falava.
Tudo que tinham, tinha em dobro. Tanto faz qual é qual.

Subiu no moquifo escuro e mofado.
Buscou em caixas antigas que lhe pareciam bonitas,
encontrou brinquedos quebrados.
Mas todos marcados com colas que não aguentaram.
Decidiu deixar por lá.

Abriu a porta e andou.