9.7.15

Cartas de amor se respondem ou se devolvem.

  Sete de Julho do ano Quinze.

   Olá, velho amigo.

    Me desculpe por não te dar notícias durante todo este tempo. Sentia falta da sua presença física no início, mas depois de um tempo parei de pensar dessa forma. Percebi afinal, que as maiores amizades que já fiz durarão para todo o sempre sem necessitarem trocar mais frases distantes. É uma das verdades mais simplórias, mas nenhuma amizade jamais é substituída por outra. Se não são despedaçadas, nunca se perderão.

    Pois bem. Te escrevo pois viajo e neste último ano presenciei sentimentos e pensamentos incríveis, no melhor e no mais trágico sentido que esta palavra pode passar. Tudo ao mesmo tempo. Eu caminhava ao redor de uma pequena cidade, quando perdi contato. Encontrei um campo onde nasciam todas as espécies de flores que existem nesse mundo. E neste lugar aberto, havia uma bela entidade que emitia luz e calor. Bastou olhar para aquela forma viva que sabia do que se tratava. Naquela espécie de paraíso, aquele era o Deus Regente, e senti como se houvessem passado meses e meses apenas observando tal criatura, ainda que fossem breves minutos. Enquanto me sentia extremamente reconfortado, as flores que estavam perto de mim passaram a enegrecer e murchar, e este  foi o tempo que durou até aquele jardim perceber minha presença indesejada e lançar uma criatura negra como sistema de defesa sobre mim.
   Uma silhueta escura, como se uma sombra andasse em minha direção com olhos verdes. O maligno me alcançou antes mesmo que eu pudesse reagir e avançou em meu peito. Encostou o que mais parecia com um rosto em sua tenebrosa feição e apesar de começar a sussurrar no meu ombro, sua voz era como centenas de trovões que ecoavam juntos, ensurdecendo-me.

- Sua presença aqui alegra meu Deus, é verdade. Mas retira-lhe todas as energias para que este lugar continue vivo como nenhum outro. Vá embora ou sofrerá igualmente. A partir de já.

  Perdi todo o meu ar naquele instante, amigo. Tudo o que estava enchendo minha alma de alegria a poucos instantes, agora destruía todas as células de pensamento do meu corpo. Lancei um último relance para a Divindade que permanecia atrás do Maligno, e desatei a chorar quando li em seus olhos brilhantes como o Sol de que não desejava me fazer mal algum. Realmente apreciava que eu havia encontrado tudo aquilo. Chorei durante horas, enquanto no chão, rastejava buscando ar para respirar e uma saída dali.
 
     Acordei depois do que me pareceram dias, numa pequena taverna da cidade que estava próximo.
Não procurei pelo jardim ou pela criatura de luz. Continuei em minha viagem e conheci pessoas  e outros lugares bacanas. A vida continuou normalmente. Mas nunca me esquecerei do que ocorreu. É possível que no futuro eu perca as lembranças do Maligno que me atacou, e busque o jardim novamente em busca de Deus. Independente das considerações, mesmo se pudesse, nunca desejarei não ter estado ali. Talvez eu tenha passado anos naquele lugar, pois percebi que estou mais velho do que me lembrava ser. Decidi não voltar para casa.
   Tive medo de que aqueles com quem possuo amizade pudessem passar a me estranhar, como podem. Talvez não me reconhecessem mais, com traços que provavelmente mudaram. Lembre-se de como comecei esta carta se não ouvir mais de mim. Mas se me vir em algum lugar, querido amigo, por favor, fale comigo. Prometo que eu o farei.
    Apesar de tudo,

Saudades sim,




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