Saiu de casa em busca do encontro com uma amizade que lhe faria sentir bem. Merecia se sentir bem, poderia se sentir bem. E mesmo assim, a cidade não quis lhe ajudar naquela terrível terça-feira, em plena três da tarde. Chegou com quase uma hora de atraso e os números que verificava sempre lhe mostravam que não dá pra mudar nada do que já passou. As pessoas que lhe olhavam, você jurava que notavam seu novo corte de cabelo e estranhavam não só suas roupas, mas o seu olhar de superioridade. Estava sozinha e estranha no meio de dezenas de vitrines parecidas e repetitivas. Sem créditos e sem bateria, culpava a si pelos descuidos no dia anterior. Não conseguia encontrar sua amizade antiga que há muito tempo não ouvia a voz enquanto lhe olhava nos olhos em tempo real. Não haviam marcado um ponto de encontro. Era sempre assim, já sabia. E então os números de outras telas continuavam a lhe mostrar que o tempo só consegue ser acumulativo. Havia trabalho e até lazer acumulado, mas principalmente a primeira opção lhe doía mais a cada instante que se encontrava parada sobre seus dois pés, enquanto podia jurar que até os seguranças do local começavam a estranhar sua presença. Agora tu eras apenas mais uma ovelhinha que estava ali com dinheiro de sobra, que se vestia bem para chamar a atenção de algum novo olhar numa esperança antiga que fazia você se envergonhar de quando era dez anos mais jovem. E ali envelhecia. Quantas vezes prometeu nunca mais pisar naquele tempo consumista? Andou em busca da saída, era tarde para amizades. Já ensaiava o discurso em duas versões, uma irritadiça e incomodada, e outra para semanas mais tarde, envolto em risadas e comentários que repercutiriam simpatia e identificação dos outros. Os outros amigos. Mas já que já estava ali, por quê não uma visita a livraria? Só para ver se havia algo de novo, algo de bom, algo de preço pequeno, algo que lhe fizesse não perder a viagem por completo. Andou buscando disfarçar a mudança de objetivo, da saída para a livraria era uma volta e todos agora saberiam que estava
realmente sem ter o que fazer.
Até que aconteceu uma loja de animais. Uma vitrine como todas as outras que odiava e com um quê a mais: animais em sofrimento expostos para serem vendidos, da mesma forma que escravos foram (e talvez ainda sejam) vendidos. Cachorrinhos e gatinhos. Lhe dava pena, os animaizinhos tão fofinhos ali. Não havia dinheiro para adotá-los. Não havia paciência para denunciar a loja ou algo do tipo. Mas notou um aquário. Se lembrou aquele que um dia teve e que agora estava sem água e sem peixes no fundo do seu armário. Nunca soube o por quê de nunca ter jogado aquilo fora. Tivera um pequeno peixe há mais de 10 anos que não durou muito tempo por falta de atenção. E no aquário da vitrine da loja estavam vários peixes, robustos, coloridos e exóticos. Mas havia um pequeno peixe, que mal conseguia nadar e que até hoje você não sabe o motivo de como justamente este lhe chamou mais atenção. Foi um impulso extremo. Perguntou se o pequenino peixe estava adoecido e o vendedor lhe disse que não. Por que estava assim apático então? Apenas não gostava do seu aquário. O impulso foi gigantesco. Comprou aquele peixe ridículo e o levou no ônibus consigo, sempre o protegendo do sol. Era um peixe de água salgada, e tudo que não faltava naquela cidade era o mar. Foi apenas uma loucura sem sentido, uma escapada da monotonia dos dias, mas até hoje sente que aprendeu algo com aquele momento em que libertou o tal peixe, e ele raquítico como se apresentava na vitrine de uma loja, nadou naquele momento com velocidade espantosa. Teus pés humanos estavam parados e mergulhados na água do mar e o peixe não era mágico nem nada do tipo. No momento em que foi posto na água, se libertou e fugiu para longe.
Aquela amizade que não havia aparecido, também havia apenas se atrasado com o trânsito que nem você e pensou mil maneiras de pedir desculpa, justamente que nem você, e dias depois contaram o que aconteceu com cada um. Mas você não contou sobre o peixe. Guardou apenas para você e até hoje se lembra daquele primeiro momento. Fez algumas viagens meses depois. Aprendeu coisas novas. Não é como se houvesse se tornado um defensor dos animais nem nada. Suas fraquezas e egoísmos humanos haverão de sempre existir. Mas até hoje, lembra que nada daquilo estava planejado previamente. Que em um dia sujo e monótono como qualquer outro, você teve coragem e conseguiu libertar um peixe. E foi tão fácil.