13.8.15

"Esse é pra você"

         Não existe ato mais imoral neste mundo (uma frase já repetida em diversos contextos) do que a amostra proposital da arte que foi feita para alguém, para este alguém. O autor ou autora da obra tornam-se imediadamente seres extremamente vagos por uma instância. A reação do Alguém à obra, é quem define se tal artista é totalmente repugnante e pequeno, ou se ele ou ela o controla completamente. E a prática de tal ato de imoralidade pode ser um vício. Ainda estou me curando do mesmo, mas continuaremos eternamente sendo vítimas dele em vários momentos do futuro.
 
   O Alguém, quando lisonjeado pela beleza do ato que veio dedicado a si, sente-se também estranho e como se estivesse em débito. Não propriamente ao autor, mas talvez à arte em si. Grandes discussões. Complica-se um pouco mais a situação quando este mesmo Alguém não considera seus talentos relevantes e sente-se incapacitado de responder a altura.
   No caso da obra de arte incomodar o homenageado em questão, é em apenas um segundo que aquilo tudo se torna uma batalha, onde é vitorioso quem gastar menos parte de seu tempo pensando no outro. Muitos dos relacionamentos humanos se baseiam nessa mesma batalha, por acaso.
 
       No geral, o que é mais costumeiro de acontecer quando a arte que foi feita para alguém é apresentada propositalmente para este alguém pelo autor da arte, é o Alguém paralisar e permanecer assustado e com cautela, como se um tigre viesse em sua direção por longos minutos. Com sorte, sensatos terceiros que estão passando por perto no momento apenas depositam todas suas esperanças de que ninguém resolva abrir a boca pra tentar falar algo. Ouve-se um "obrigado", "ooh", beijos, abraços e o silêncio recomeça.

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