7.11.14

Brinquedos no Chão

          O calendário possuía uma forma diferente em sua infância. Sempre foi algo que você não soube definir direito. Os dias pareciam possuir formas diferentes. Não era bem isso. Cores. Tamanhos. Nenhuma dessas definições lhe parecia apropriada. A semana inteira formava uma espécie de gráfico em sua cabeça. E tentar passar essa representação para os outros era muito difícil e até assustador.
Ninguém concordaria com aquilo, ninguém jamais havia citado algo parecido. Era só seu. Guardou para si. Mas as definições -abstratas- continuaram lá.
           E de repente, agora, anos e anos mais velho, reparou que algo mudou. A semana não possui mais a mesma duração de antes, mas os dias sim. As vezes, os meses só servem para medir o comprimento do seu cabelo. Se pegou pensando em quantas quartas-feiras já viveu esse ano. E toda semana pensa onde estava naquele instante da semana anterior. É um ciclo de palavras repetitivas. O que havia planejado foi de alguma forma realizado? Na maioria esmagadora das vezes, não. O futuro não é mais a época onde haverão carros voadores e teletransporte. O futuro agora são os dias que virão daqui a pouco. Dezembro é sempre um destino final. Descansos e desejos se confundem. Tua forma de ver o calendário mudou e tu sabe que teu corpo não é mais o mesmo. Mesmo assim se pergunta no seu mais profundo quando se sentirá um adulto. Quer respostas das pessoas que admira, mas não sabe (nunca soube) fazer perguntas. Ninguém jamais concordaria com aquilo. Ninguém jamais citou aquilo.

           Nostalgia e deja-vu são bagunça num quarto com brinquedos no chão. Você sempre preferiu brincar sozinho.

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