13.7.16

Preciso, Quero e Comprarei.

-   Acho que não gosto deste caderninho vermelho que adquiri no mercadinho por 6,90. Achei que não me importaria com seu tamanho mediano, suas margens apertadas. Me importei muito. A caneta esferográfica azul também não ajuda em nada, sinto falta do negro do nanquim. Que engano achar que me bastaria qualquer superfície para que viessem as ideias. A falta de organização então seria apenas minha culpa se estas páginas fossem maiores, sem linhas horizontais, num amarelo-bege, com uma bela espessura e cobertas e protegidas por uma bela capa de couro falso e negro, com ergonometria calculada especificamente para as minhas mãos. Este seria o caderno perfeito, e por apenas 399,90, possuo o sonho dos meus sonhos de consumo, que digitaliza tudo que nele for rabiscado escrito e desenhado automaticamente para minha conta na nuvem mais próxima. Agora sim me tornaria um novo Nobel de literatura (apesar de nunca ter visto um utilizar um destes cadernos). Me aceito como sou, graças ao produto! Quero mais e mais, personalizado para mim. Deve ser exclusivo para mim, assim como este autógrafo de quem realmente importa e não me conhece, mas que consegui após passar três horas em pé numa fila. Quem amo existe e olhou meu rosto durante preciosos quinze segundos, que esbanjarei até o resto dos meus dias. Depois do meu novo caderno, poderei então passar o resto dos meus dias onde é seguro, junto de tudo que existe para mim. Preciso, preciso, preciso também de cadeiras novas, mesas novas. Agora poderei escrever o livro que ninguém lerá.

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